Manual de comportamento social para vegetarianos

Ser vegetariano é uma delícia na mesa, mas, às vezes, uma barra na vida social.

Por sermos minoria, vira e mexe a gente entra em umas saias justas que podem nos deixar sem reação, como ter que entrar em um fogo cruzado com um onívoro inconveniente, se justificar constantemente com outras pessoas, fazer uma espécie de odisseia para encontrar um médico atualizado sobre nossas necessidades, não ter o que comer fora de casa.

São tantos os conflitos que dá vontade de andar com um manual de autoajuda embaixo do braço, uma espécie de guia comportamental – “aprenda a enfrentar saias justas típicas de todo vegetariano”.

Como seria impossível prever absolutamente todas as situações por quais podemos passar, preparei uma listinha com aquelas mais frequentes e uma sugestão do que fazer quando elas aparecem.

Confesso que de vez em quando sinto vontade de comer carne. O que devo fazer?

Nos primeiros meses de vegetarianismo, eu salivava quando sentia o cheiro de linguiça assada. Com o tempo, meu paladar foi se esquecendo do sabor da linguiça, do churrasco, da carne… Hoje, depois de 10 anos, juro pra você que não tenho vontade nenhuma de comer essas coisas.

Então, dê tempo ao tempo. Normalmente, o paladar leva uns 3 meses para se adaptar a uma mudança, como a exclusão da carne ou a diminuição do sal, no caso dos hipertensos.

Como a maioria de nós vegs não nasceu vegetariana, é normal salivar com um cheiro ou uma imagem que até então relacionávamos a um tipo de prazer, como a imagem e o cheiro do churrasco. O que vai te ajudar a se manter firme no seu vegetarianismo é a sua convicção interior de que não dá mais para bancar a exploração e a morte dos animais.

Meu médico mandou eu voltar a comer carne, mas não quero. O que devo fazer?

Procure outro médico. “Qualquer problema de saúde ou deficiência nutricional pode ser corrigida sem a carne”, garantiu o médico nutrólogo Dr. Eric Slywitch. “Se o profissional que o acompanha não respeita sua opinião, você pode encontrar outros mais atualizados sobre o assunto”. Palavra de médico.

Fui convidado para um jantar na casa de não vegetarianos. O que fazer?

Íntimos ou não, pergunte aos anfitriões se tudo bem você levar um prato vegetariano. Muito provavelmente você tirará um peso das costas deles.

Em relação ao prato, leve um bom e bonito só pra mostrar pra povo desinformado que a gente pode comer muito bem, obrigado.

Como você levará um prato delicioso, providencie-o em grande quantidade. Quando povo sabe que um prato é vegetariano, ele cai pra cima e, se você bobear, fica sem nada. Pode ser apenas um simples patê de azeitona… Falou a palavra “vegetariano”, normalmente o pessoal da carne arregala o olho de curiosidade e o bocão de gula.

Fui convidado para um almoço de negócios numa churrascaria. E agora?

Você pode sugerir outro restaurante ou ir e ficar só no bufê de saladas e legumes, que, nas grandes churrascarias, costuma ser farto e bem variado.

Meu companheiro/a não é vegetariano/a e estamos pensando em ter filhos. Como evitar conflitos?

Esses casos são os mais complicados. O casal pode tentar chegar a um acordo diplomático, mas se ambos forem intransigentes em suas escolhas, provavelmente o conflito será inevitável e um dos dois vai ter que abrir mão.

Já ouvi muito o seguinte comentário: “Tem tanta criança no mundo passando fome, por que se preocupar com os animais?”. O que falar nessas horas?

Se dedicar à causa animal não necessariamente me impede de promover outras causas, como o combate a fome ou a luta contra a desigualdade social.

Quem pergunta isso não costuma fazer trabalho voluntário, portanto, nem adianta perguntar quantas crianças com fome essa pessoa ajudou recentemente.

O que fazer quando sou recriminado pelos familiares que se sentem ofendidos por eu não comer um prato com carne preparado por eles?

Se você prefere manter sua filosofia a ter que agradar alguém, exponha seus motivos e torça para que seus familiares sejam pessoas abertas e tranquilas. Coloque na cabeça que, se para eles sua atitude é grosseira, para você a insistência deles também é.

Mas, que fique claro, nada impede que você deixe sua filosofia de lado e aceite a comida que está sendo oferecida.

Eu já fiz isso com um prato que tinha queijo no dia em que conheci a avó do meu marido – napolitana, 96 anos na época (ela faleceu pouco tempo depois do nosso encontro), sobrevivente da 2ª Guerra… Como ela sabia que eu não comia carne, preparou uma receita com queijo especialmente para mim. Comi e elogiei sinceramente.

O que devo fazer em relação à comida quando faço uma viagem longa de avião?

Nas viagens internacionais, é possível reservar sua refeição especial no momento da compra da passagem aérea.

Aliás, esse esquema de refeição especial é ótimo porque sua comida é entregue antes de os comissários servirem os outros passageiros e, normalmente, a refeição vegana é excelente.

Se a viagem for nacional, não deixe de levar suas castanhas, frutas secas, biscoitos e lanchinhos preferidos.

Trabalho o dia todo fora de casa e numa região onde restaurantes vegetarianos praticamente não existem. Como resolver esse problema?

A alimentação vegetariana não é tão exclusiva assim. Em qualquer restaurante é possível encontrar legumes, verduras, arroz e frutas – pra deixar sua salada mais nutritiva, leve com você semente de linhaça, frutas secas e castanhas. O problema fica na hora do feijão, que na maioria das vezes é feito com bacon e linguiça.

Se não der mesmo pra ir a um restaurante não vegetariano, leve sua própria marmita de casa.

Como lidar com piadinhas que depreciam o vegetarianismo?

Diplomacia sempre é a melhor saída. Ou seja, ignore-as! Se você souber ser sarcástico, irônico, e estiver com vontade de continuar a “conversa”, vá em frente, mas, nossa, que canseira esse tipo de coisa.

O mesmo vale para aqueles discursos vegetarianos catequizadores. Por favor, evite esse tipo de coisa. Não tem coisa mais chata do que vegetariano metido a crente ou com ar de superioridade porque não come bichos.

Não sei como substituir o couro, a lã e a seda.

Leia as etiquetas de roupas e acessórios. Muito do que é vendido parece, mas não é. Poliéster, acrílico, policloreto de vinila (PVC), náilon e viscose são alternativas que ainda têm a vantagem de custarem menos do que os tecidos de origem animal.

Já percebi que os vegetarianos sofrem muito preconceito por causa da opção alimentar. Como se manter convicto nessa escolha?

Esses tipos de dificuldades acabam se tornando pequenas quando você está preparado emocionalmente para sua decisão.

Sim, você está indo contra a corrente, mas tem muitas outras pessoas junto com você nesse barco – profissionais das mais diferentes áreas, ativistas e, em alguns casos, amigos e parentes.

Para não se sentir um doido solitário, frequente eventos ligados ao vegetarianismo, restaurantes veganos, cursos de culinária veg… Enturme-se, ou não, se você é da turma “antes só do que mal acompanhado”.

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8 comentários sobre “Manual de comportamento social para vegetarianos

  1. Olá
    Gostaria de um conselho
    Minha mãe quer conversar sobre culinária animal comigo. Quer contar os pratos que viu na TV, contar o ponto da carne, falar de programas de churrascos na TV.
    Isso me incomoda muito. Já expliquei várias vezes que esse assunto não é bom de ouvir, que me respeite.
    Mas não adianta, melhora um pouco, e começa de novo. Durante a conversa eu falo que aquilo não me interessa, e ela continua mesmo assim.
    Aí qdo falo mais firme, sai de cara feia.
    O que fazer? Devo ouvir até o fim?

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    1. Oi Daniela,
      Aqui em casa, quando meu marido prepara alguma carne pra ele e começa a falar sobre o quanto está boa, eu finjo que não ouvi e começo a falar de outro assunto qualquer. Se sua mãe quer insistir nisso, ignore-a, finja que não ouviu nada ou que não prestou atenção e proponha conversas sobre a culinária vegana. Por exemplo, “olha esse prato que lindo! Deve ser maravilhoso. Vamos fazer juntas?”
      Beijo

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  2. Outro comentário, só pra reforçar:

    Confesso que no primeiro comentário eu elogiei o post, mas fiz isso superficialmente, ou seja, eu não havia lido realmente.

    Mas, como seu artigo foi escrito de forma tão simples de entender resolvi ler só o comecinho. Mas, como eu disse, tava tão simples de entender e tão intuitivo que resolvi continuar lendo até a última palavra.

    Devo dizer que não sou vegetariano, mas já parei pra pensar nessa possibilidade. Talvez, futuramente, eu também me torne um.

    Eu só queria dizer uma coisa: Mesmo eu não sendo vegetariano eu me identifiquei muito com o seu texto e, isso logo no começo, pois você citou uma situação em que os vegetarianos enfrentam contra os “comedores de carne” (ou seja lá o que for. 😂😂), pra ser mais específico me refiro à situação de que “vegetarianos são minoria e, por conta disso, senten-se na obrigação de mudar alguns comportamentos afim de se adaptarem à maioria”. Com essa informação eu associei tal situação com a que pessoas introvertidas enfrentam contra pessoas extrovertidas, somente pelo fato de introvertidos serem minoria e, por conta disso, devem mudar alguns comportamentos e tal.

    O que quero dizer é que sou introvertido e, por isso me identifiquei, graças a essa associação que fiz.

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  3. Impressionado pelo fato de o blog ter sido feito gratuitamente e, mesmo assim ter conseguido colocar anúncios e conseguir deixar o blog nas primeiras posições do Google. Deve ter dado bastante trabalho (falo por experiência própria), parabéns pelo trabalho e, a propósito, o post ficou muito bom.

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  4. Nossa, adorei.
    Seguidamente passo por situações de pessoas tentando me convencer a voltar a consumir carne e acho muito desagradável, visto que não tento convencer ninguém de virar vegetariano. As pessoas chegam ao cúmulo de me perguntar se não sinto pena das alfaces e que elas também sentem dor da mesma forma que os animais.

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    1. Sim, Mariana, também já me perguntaram isso. Que canseira, né? O pessoal força mesmo a barra pra tentar justificar o consumo de carne. Parece surreal, mas quando me perguntaram isso eu disse que não tenho dó de alface porque ele não tem um sistema nervoso desenvolvido nem faz cara de dor. E outra: não consigo viver de ar.

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