Crianças veganas: a polêmica continua

Gosto de ler horóscopo, principalmente o perfil do Oscar Quiroga, no Instagram. Hoje ele sugeriu a todos continuar sonhando firme, mesmo tendo que conviver com o veneno da ansiedade, porque “nesse cenário de moralidade falida em que somos obrigados a existir” ainda é melhor sofrer de ansiedade do que se convencer que tudo o que acontece por aí é a normalidade. Mensagem bonita, considerando que “normalidade” é igual a “verdade”: depende do ponto de vista.

Para mim é normal ser vegana, mas para a grande maioria das pessoas a normalidade é consumir bichos mortos e produtos frutos da sua exploração (estou falando do leite e do ovo). Para essa massa de gente, não só isso é normal como é fundamental para a saúde, principalmente para crianças em fase de crescimento. Nesse caso específico, mais do que normal, é praticamente uma convenção moral de que os pais devem alimentar seus filhos com produtos de origem animal. Do contrário, as crianças não crescerão direito e você, mãe ou pai vegano, será visto como uma pessoa muito irresponsável e injusta, pois a criança não pode escolher o que quer comer. Dizem.

Sim, ok, não tenho filhos e não sou nutricionista, mas faz mais de 10 anos que entrevisto especialistas em nutrição e há consenso sobre isso: alimentação vegana balanceada é saudável para crianças. Consenso que dia após dia só ganha força. Hoje mesmo a Associação de Nutrição e Dietética, dos Estados Unidos, publicou um texto em que diz o seguinte: “padrões de alimentação vegetariana e vegana bem planejados podem ser saudáveis e apropriados para todas as fases do ciclo de vida, incluindo bebês e crianças pequenas.”

Ainda assim, tem gente (da área médica e de área nenhuma) contrária à alimentação vegetal para crianças, porque a “normalidade”, baseada talvez em estudos financiados pelas indústrias da carne e do leite, diz que os pequenos precisam comer bicho morto. Nesse caso, as crianças também não podem escolher se querem ou não beber leite e comer carnes e ovos, mas tudo bem.

Quando criança, me lembro que eu odiava tanto beber leite, que cheguei a vomitar uma vez, depois de ter sido obrigada a tomar um copo de leite com achocolatado antes de ir pra escola, onde a merenda consistia em pão branco com salsicha e… Leite com achocolatado, claro!

Também me recusava a beber leite de vaca tirado na hora, no sítio da família, mas era vista como uma criança chata por isso. Muito “justo”, realmente. Também me lembro do dia em que a Bela Gil publicou na sua rede social uma foto da lancheira da filha onde tinha só alimentos vegetais, incluindo uma batata-doce. Nossa, como esculacharam a Bela Gil por isso.

“Que horror! Uma batata-doce na lancheira da menina”, bradou a internet. Muito melhor um pacote de salgadinho cheio de corante, sódio e gordura trans, um refrigerante e um pacote de waffle recheado, não é mesmo? Aí sim podemos ficar tranquilos dentro da nossa normalidade feita de crianças com menos de 10 anos já sofrendo de obesidade, diabetes, colesterol e pressão alta porque se alimentam mal e não sabem distinguir uma berinjela de um mamão (se você ainda não viu o documentário Muito além do peso, clique aqui para assisti-lo inteiro).

Com tudo isso quero dizer que ninguém deveria condenar pais e mães veganas por escolherem esse tipo de alimentação para seus filhos. Sendo uma alimentação balanceada (inclusive aquela onívora, se os pais optarem por ela), não vejo porque fazer tanto escarcéu em cima de algo tão normal quanto comer vegetais.

 

Casa, comida, roupa lavada e mulheres veganas

Estou sem panela de pressão, porque a tampa da minha quebrou. Por causa disso, em vez de 40 minutos, o cozimento do feijão dessa semana demorou 1h30. Enquanto cozinhava, fui lavando e picando verduras para não perder nada, nem verdura nem tempo. Depois de tudo pronto e da barriga alimentada, foi a hora de armazenar a comida nos respectivos recipientes, limpar fogão, panelas e pratos. Eu não tenho máquina de lavar louça. Nisso tudo, acho que fiquei na cozinha mais de 3 horas e, enquanto lavava a louça, vários pensamentos aleatórios começaram a passar pela minha cabeça:

– Olhaí o lado bom de trabalhar em casa.
– É até legal aquela música do Mahmood.
– Que maravilha não ter filhos.
– Nossa, já estamos na metade de fevereiro.
– 1+1. Não deve ser fácil pra uma mulher que tem filhos e trabalha fora, chegar em casa e cozinhar tudo isso, cuidar da casa e de todo o resto. 

Foi inevitável pensar nas milhares de mulheres que eu via nos ônibus, em São Paulo, quando voltava para casa depois do trabalho. Em São Paulo, onde, me lembro bem, um ônibus poderia levar uns 30 minutos para ir de um ponto para o ponto seguinte, porque a fila era longa demais, consequência do excesso de gente para entrar em ônibus já lotados.

Se eu passei 3 horas na cozinha, essas mulheres, que obviamente continuam lá, pegando ônibus para ir de um lado a outro da enorme cidade para trabalhar, facilmente podem passar mais de 3 horas dentro de transporte público. E mesmo depois de uma jornada estafante de trabalho, tenho quase certeza de que muitas delas chegam em casa e ainda precisam cuidar da limpeza da casa, da roupa suja, dos filhos e da comida. Sem falar naquela pressãozinha básica de estar sempre pronta para dar amor depilado.

Como é que alguém pode falar para essa mulher que ela precisa ser vegana, que ela precisa incluir na sua dieta arroz integral, quinoa, tahine, castanhas, frutas orgânicas…? É verdade que não precisa ser rico para ser vegetariano estrito, mas no mínimo você precisa de tempo para preparar sua comida. Comida saudável, vegana e pronta para consumo não pode ser considerada o item mais em conta no Brasil.

Daí fiquei pensando no perfis ativos de mulheres veganas que acompanho com prazer nas redes sociais. Com elas pego receitas, dicas de restaurantes, de produtos, alguns deles ditos funcionais, que, imagino, não funcionam para o bolso de uma mulher de baixa renda. Adoro essas mulheres e uma coisa que notei é que entre as mais ativas na redes sociais, a grande maioria não tem filhos. Aquelas poucas que têm, também costumam mostrar um companheiro que vira e mexe aparece em fotinhos fofas de família nas férias ou no aconchego do lar. Enquanto eu, do lado de cá, fico imaginando que esse companheiro colabore de um jeito ou de outro nas obrigações do dia a dia.

Não estou criticando nem uma nem outra. Adoro essas mulheres e amo crianças (longe de mim). O que eu queria era aproveitar o embalo da louça e lavar também a “roupa suja”. Muitas vezes me pergunto: uma coisa tão justa como o veganismo pode se tornar injusta se imposta como dever moral a, por exemplo, mulheres que precisam crescer filhos sozinhas enquanto fazem jornadas de trabalho massacrantes para bancar (também sozinhas) toda a família?

Eu acho que sim, que pode se tornar algo injusto. Por isso, critico e sempre vou criticar o vegano que fica policiando a ação do outro, seja ele vegetariano ou onívoro, ou que faz discursinho ameaçador, se achando moralmente superior aos outros. A gente não sabe a realidade do outro.

É claro que me deixa muito triste saber como os animais são explorados e abusados a cada segundo. É claro que eu gostaria que existissem mais veganos, assim como gostaria que as mulheres (com ou sem filhos, solteiras ou casadas, gays ou héteros) fossem mais respeitadas e apoiadas. Mas não posso fazer mais do que a minha parte em relação a isso, que basicamente se resume a escrever sobre veganismo e, como privilegiada pelas circunstâncias, cozinhar minha comida vegana que nem sempre é orgânica e funcional, mas funciona na minha realidade.

Arte e bichos, antidepressivo natural

Em tempos obscuros e sinistros, em que valores como amor, compaixão, cultura e respeito se tornaram para muitos sinônimo de fraqueza e idiotice, estou tentando me concentrar em coisas boas, como literatura, artes plásticas, todo tipo de bicho, comida gostosa e música. Assim, talvez, a esperança não decida escapar pela porta da frente.

Ontem descobri o trabalho do publicitário mineiro Rafael Mantesso, autor do livro Um cão chamado Jimmy (Intrínseca – 168 páginas – R$ 34,90), que me fez sorrir.  Rafael conta que com o fim de seu casamento, se viu num apartamento vazio, exceto pela presença de Jimmy Choo, um bull terrier branco também mineiro que adora bolinhas, ossos, fones de ouvido e um velho cobertor cinza. Naquele momento, conta o publicitário, ele percebeu que estava cercado de um amor incondicional e, para espantar a melancolia, transformiu o parceiro inseparável em modelo para fotos bem-humoradas, cheias de referências pop e clicadas com estilo despojado e inconfundível.

Fotos deliciosas a seguir.

 

 

 

20 coisas para saber sobre as vacas

Adotar a alimentação vegana ou se manter firme nela, sem nenhuma “escorregada”, pode ser difícil, porque no meio do caminho tem uma pedra chamada laticínios. É o tal do leitinho, do queijo assim ou assado. Queijo é tão bom que a veganada pira naquelas marcas que conseguem imitar com mais ou menos perfeição o sabor e a textura dos queijos animais.

Mas, é aquela coisa, né? Esses produtos são caros e nem é tão bom assim ficar comendo isso todo dia, porque podem ter corantes e outros -antes dos quais o corpo vive muito bem sem, obrigado. O jeito então é renunciar aos laticínios e viver em paz com isso, enquanto encosta a barriga na pia da cozinha para preparar pastinhas caseiras de castanhas que substituem os queijos.

Se essa renúncia é um problema para você, sugiro o consumo de cultura: cinema, documentários e livros. Não necessariamente sobre veganismo, mas sobre a vida como ela é dos animais. Essa semana, por exemplo, terminei de ler o The Secret Life of Cows (A vida secreta das vacas, sem tradução para o português, infelizmente) e foi ótimo para reforçar minha convicção de que o veganismo é o o caminho mais acertado que uma pessoa pode fazer, mesmo com as muitas pedras pela frente.

Escrito por Rosamund Young, que, junto com o irmão Richard, administra a antiga fazenda da família, chamada Kite’s Nest e localizada em North Cotsworlds (Inglaterra), o livro foi publicado pela primeira vez em 2003 e é um relato simples e adorável do dia a dia na fazenda, sempre com foco no comportamento espontâneo dos animais.

Rosamund e o irmão aparentemente não são veganos, mas têm uma relação muito próxima com as vacas, os bezerros, as ovelhas, as galinhas e os porcos que vivem com eles. Tão próxima que o livro traz até uma árvore genealógica das vacas que nasceram e procriaram na Kite’s Nest, com direito a nome e sobrenome. Mais do que literalmente dar nome aos bois, Rosamund aprendeu, após anos de observação e “conversa”, a entender o mundo das vacas. Com essa experiência nas costas, a fazendeira escritora diz com convicção que:

As vacas são indivíduos, assim como são as ovelhas, os porcos e as galinhas, e, ousarei dizer, todas as criaturas do planeta, embora transcuradas, pouco estudadas ou ignoradas. Claro, poucos colocariam essa afirmação em dúvida quando se fala de gatos, cachorros e cavalos. Mas nós, toda vez que tivemos a ocasião de tratar os animais da nossa fazenda como se fossem animais domésticos – porque estavam doentes, sofreram um incidente ou estavam de luto – sempre encontramos na nossa frente grande inteligência, capacidade afetiva e a habilidade de se adaptar a uma mudança de hábitos, se bem momentânea. 

Graças a uma vida passada junto a esses animais incríveis, Rosamund revela 20 características das quais pouca gente tem ideia a respeito das vacas.

1. As vacas se querem bem… pelo menos algumas.
2. As vacas cuidam dos filhos uma das outras.
3. As vacas criam rancor.
4. As vacas inventam jogos.
5. As vacas se ofendem.
6. As vacas sabem se comunicar com as pessoas.
7. As vacas sabem resolver problemas.
8. As vacas têm amizades que duram uma vida.
9. As vacas têm preferências em relação à comida.
10. As vacas podem ser imprevisíveis.
11. As vacas podem ser uma boa companhia.
12. As vacas podem ser chatas.
13. As vacas podem ser inteligentes.
14. As vacas amam a música.
15. As vacas sabem ser gentis.
16. As vacas podem ser agressivas.
17. As vacas sabem como ser confiáveis.
18. As vacas podem ser obstinadas.
19. As vacas sabem ser sábias.
20. As vacas sabem perdoar.

Tomara.

Autobiografia da fotógrafa vegana Rachel Siqueira é uma montanha-russa de emoções

Eu queria escolher um trecho da autobiografia de Rachel Siqueira, o livro Dias sem Noites, para publicar aqui. Mas não consegui escolher só um porque o livro é uma montanha-russa de emoções: numa hora você chora e na página seguinte você ri. Portanto, dependendo do trecho que eu escolhesse, quem ainda não leu o livro teria uma ideia muito limitada do que ele é e da narração de Rachel.

Tão inteligente quanto o tom irônico da narrativa é a estrutura do livro. Capítulos sobre infância, primeira menstruação e encontros insólitos da autora são intercalados com seu relato sobre os 17 dias de sua internação forçada em um hospital psiquiátrico, em Belo Horizonte. Estes marcam o tema central do livro e aí não tem como não chorar.

O leitor sente a angústia de Rachel, que precisava enfrentar a loucura alheia até na hora de comer – só depois de quatro dias internada e de uma conversa com uma nutricionista, que achava que vegetariano comia peixe e ovo fazia bem, foi que Rachel conseguiu receber refeições vegetarianas.

“Naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, orei ao me deitar, tentando dormir. Não acredito que uma entidade ouça meus pensamentos, mas precisei tentar. Orei para os dois mais populares, o Deus e o Demônio. Foi mais ou menos assim: ‘ – Sei que nunca acreditei em vocês e sei que se eu morrer não poderei dá-los crédito depois. Mas se algum de vocês dois me ouvir, me mata, por favor'”

Samira: Você começou a escrever os primeiros rascunhos de Dias sem Noites dentro de um hospital psiquiátrico. Onde e quando o livro termina? 

Rachel: Dentro do hospital psiquiátrico comecei a escrever os capítulos sobre a internação involuntária (junho de 2013) pela qual passei. Após muita insistência, sorrateiramente uma enfermeira me deu um lápis e folhas de papel, e assim comecei a registrar o que vinha acontecendo. Ainda que inábil emocional e mentalmente por causa dos psicotrópicos, soube precisamente por onde começar o relato e, curiosamente, o que ali escrevi como pretenso rascunho tornou-se no primeiro capítulo sobre a internação – sem edições significantes.

O livro tem 25 capítulos, oito dos quais abordam a internação. Os demais capítulos já vinham sendo escritos desde o início daquele ano e visavam construir o perfil Borderline pela construção do personagem (eu). São nove os principais traços associados ao Transtorno de Personalidade Borderline e, nos primeiros capítulos, busquei explicitar o estilo da escrita (que tende ao caricato e autodepreciativo) com a qual o leitor se depararia por receio de interpretações literais.

A internação me proporcionou um link entre textos que por um desavisado passariam por desconexos. Foram os piores 17 dias da minha vida e me alteraram significantemente; mas foquemos no Namastê – uma linda flor saiu do podre lodo.

Samira: Como foi escrever alguns dos momentos mais difíceis da sua história de vida? 

Rachel: Foi e continua sendo horrível lidar com o tema. Dia desses tentei lê-lo e, como já havia acontecido anteriormente, não consigo ler os capítulos “sérios” (sobre a internação) – que, por sinal, sofreram insuficiente edição, tamanho era meu desgosto de com a memória e seu registro lidar.

É RIR PRA NÃO CHORAR

Se nos capítulos sobre a internação o coração do leitor chega a doer, em outras passagens é a barriga que dói de tanto rir. Como no capítulo em que Rachel conta sobre o encontro amoroso com o carinha que ela chama de “frouxo”.

(…)  após ouvir de algumas amigas que eu precisava deixar de ser “tão exigente”, dei mole prum frouxo; mas nada que faço é moderado, jamais consigo comer só um pouco de berinjela e não me conformaria com baixar meus standards de leve. 

Não poderia ser um frouxo qualquer, tinha que ser uma catástrofe ambulante. Que sorte a minha, precisamente o que estava à minha frente! O cara nem era somente frouxo, ele defendia o voto compulsório, decorou um monte de nomes e datas irrelevantes e era, em suas palavras, “- Um idealista”. 

Lembrei de pizza. Eu adoro pizza de berinjela, cogumelo e pimentão, tudo junto. “…Hei de gostar também desse amontoado de porcaria em forma humana!”,- me propus.

E foi assim, nessa vibe demente/altruísta que, quando me dei conta, um frouxo estava chupando minha boca. Não era beijo, era majoritariamente sucção; forte e determinada sucção. Com sua boca ele freava qualquer possível passagem de ar para a minha, assim me obrigando a respirar seu hálito de marzipã. 

Há muitos anos eu não comia marzipã, uns 20, pelo menos. Pra ser honesta, não sentia a menor saudade daquilo. Movia a cabeça um pouco e ele me acompanhava, certificando-se de que eu não correria o risco de respirar ar fresco. Por vezes o louco lambia minha língua.

Num break perguntei:

“- Você comeu marzipã, né?”

“- Não, por que?”

“- Nada. Algum doce aí que você comeu. Me lembrou marzipã.”

“- O que é marzipã?”

“- Ah, um doce aí. Bonitinho, coloridinho e tal, mas o gosto é ruim.”

Dando-me conta do fora dado, já fui remendando:

“- Mas o gosto da sua boca não é ruim, não.”
“- Lembra marzipã por causa da essência, acho.”
“- Um gostinho de essência que tem lá.”
“- Mas o que é ruim no marzipã não é a essência.”
“- Deve ser o gosto do corante, sei lá.”
“- Não sei direito.”
“- Mas sua boca tem esse gosto não.”
“- Sua boca é uma delícia.”

E assim, só porque menti, o frouxo se apaixonou. Voltou a chupar minha boca e, dessa vez, intercalava sucção com a introdução de sua língua, que polia todo o meu palato, gengiva e língua. 

Frouxo decidiu colocar em prática o que decerto aprendera em algum manual de “Como excitar mulheres”, me apertou contra seu corpo igualmente frouxo e começou a arranhar minha nuca. Com voz safada decretou:

“- Gostosa”

Eita.

Fiquei sem graça com aquilo, mas me lembrei que precisava ser menos exigente. Completamente menos. Fingi não ter ouvido seu decreto, o que provavelmente foi péssima ideia e o tenha motivado a reiterar:

“- Gostooosa.” – dessa vez articulado mais lenta e suavemente, em tom de confissão.

Achei por bem demonstrar tê-lo ouvido, assim evitando que se sentisse obrigado a bradar pela terceira vez sua observação. Pensei em dizer “Brigada”, mas soaria tão frio, e se tem uma coisa que eu não sou é fria. Disse:

“- Gostoso é você!” 

Samira: Em muitas passagens trágicas, você consegue ser cômica e deixa o leitor, como eu, desconcertado. Sem saber direito se pode rir ou não (eu quase morri de rir no relato sobre “frouxo”, me desculpe). Por que escreveu dessa maneira? 

Rachel: Como diria Sweet Brown, “Ain’t nobody got time for that!”. Ninguém aguenta ler um monte de desgraça em sequência, penso que ao misturar tragédia com humor a leitura seja mais facilmente digerível.

Samira: Está escrevendo algo novo? Para quando? 

Rachel: Comecei um novo livro, mas por enquanto só tenho trechos soltos do que quero contar (ficção). Se depender da Samira Menezes – escritora virginiana, estruturada e toda executora – termino ano que vem. Todo mundo precisa de um melhor amigo virginiano… 2018 é o plano!

Serviço
Livro Dias sem Noites, de Rachel Siqueira
Páginas: 160
Preço: R$ 25
Vendas direto com a autora pelo e-mail chel@chelreis.com

 

 

 

Se você defende bicho e come quinoa, cuidado com onívoros inseguros

Onívoros inseguros, aqueles que partem para o ataque quando encontram um vegetariano, sempre me surpreendem. Quando percebem que não têm mais argumentos para justificar suas carninhas, começam a subir pelas paredes na tentativa desesperada de achar uma razão e se agarrar a ela.

Semana passada, vi diversos conhecidos italianos do Facebook compartilharem um artigo que questionava a ética dos veganos. O artigo dizia que os veganos não podem falar de ética porque comem quinoa.

Base da alimentação de indígenas bolivianos há muito tempo, esse pseudocereal passou a custar o olho da cara depois que o mercado descobriu que muita gente adepta da alimentação saudável estava disposta a pagar caro por ele. Isso fez com que o preço da quinoa subisse na Bolívia, impedindo que os índios e a população mais desfavorecida do país continuassem a ter acesso ao alimento.

Concordo que aí mora uma daquelas sacanagens capitalistas. Mas, questionar a ética dos veganos por causa da maneira calculista como o mercado funciona me parece coisa de gente patética que precisa subir em parede. Dizer que vegano não é ético porque come quinoa segue a mesma linha ilógica da famosa pergunta que todo vegetariano ouviu ou vai ouvir alguma vez na vida: “por que você se preocupa com animais, se tem tanta criança passando necessidade no mundo?”.

Sim, o mundo é injusto, amiguinho. Populações indígenas foram e continuam sendo massacradas por interesses que vão muito além do preço da quinoa. Crianças em diversas partes do mundo continuam morrendo de fome enquanto não faltam táticas para arquitetar guerras. Pretos continuam sendo discriminados pela cor da pele. Pobres e suas necessidades básicas continuam esquecidos por governantes corruptos. Mulheres continuam sendo assediadas, violentadas e assassinadas simplesmente por serem mulheres. Estrangeiros continuam sendo escravizados em plantações de tomate italiano ou então na confecção de roupas para grandes redes de marcas de moda. E por aí vai. A lista de problemas por onde a ética não chega perto é tão longa que não falta causa para quem quer lutar por uma realidade melhor e mais justa.

Os sindicalistas optaram por defender os trabalhadores. As feministas, as mulheres. Os ecologistas, a Terra. Os pacifistas, a paz no mundo. Os veganos optaram por defender os animais, que não têm voz nem direitos e são exaustivamente explorados por questões culturais. O fato de uma pessoa defender uma ou outra causa, na mesa ou no meio da praça, não a impede de falar sobre ética porque, como espécie, é evidente que não somos perfeitos. Vai da consciência e da disposição de cada um fazer ou não alguma coisa na qual acredita.

Se você optou pela neutralidade em relação a tudo, está no seu direito também. Só não venha apontar o dedo para o meu tofu. O mesmo recado vale para os veganos que se sentem superiores aos onívoros por serem veganos. Se sou impecável? É claro que não. Se como quinoa? Uma vez ou outra, sim. Se sinto que estou fazendo uma coisa justa ao optar por não comer carnes e afins? Absolutamente.

Os senhores da comida e suas fábricas de porcos

Frequentemente digo que não me importo em ver uma pessoa comendo carne na minha frente, mas só faço isso para evitar constrangimentos à mesa.

Como adoro o veganismo tanto quanto uma boa conversa e, na grande da maioria das vezes, estou circundada de onívoros, prefiro engolir tomates a ter que incorporar a Dona Chata do Contra ou o Seu Estraga Prazer da Silva. Por mais que minha opção alimentar seja louvável, ninguém quer ser criticado pelo bifão.

Uma boa tática é não olhar em direção à pessoa ou ao seu prato enquanto ela se lambuza com qualquer carne – do bife ao coração de galinha e a todos os pedaços no meio disso aí. Ainda que eu finja indiferença, é difícil não pensar no que aconteceu até aquela carne chegar à mesa.

É verdade que, com exceção de algumas crianças desorientadas, ninguém é totalmente ingênuo a ponto de achar que a “carninha” vem da geladeira do supermercado. Todo mundo sabe o que acontece com bois, vacas, galinhas e porcos, mas, como eu (ainda) tenho fé na humanidade, prefiro pensar que o que falta pra esse pessoal do Ocidente começar a reduzir o consumo de carne é informação independente.

Não é possível que somente um grupo pequeno de pessoas se sinta profundamente indignado com a indústria da carne a ponto de deixar de financiar esse mercado de horrores.

Uma boa fonte de informações cruas e de peso são os vídeos com imagens do funcionamento dos abatedouros, que, pessoalmente, me deixam nauseada. Ou então os livros.

Esse fim de semana comprei um, recém-lançado na Itália, chamado Os senhores da comida – Viagem na indústria alimentar que está destruindo o planeta (I signori del cibo, sem tradução para o português). Bastaram poucas páginas para que eu me indignasse (de novo) com os bastidores da produção de carne. 

Muito pragmático na sua narrativa, o jornalista investigativo Stefano Liberti detalha a fileira de produção de quatro produtos: a carne de porco, a soja, o atum de lata e o tomate concentrado. Em uma passagem, o escritor, que não é vegetariano, descreve a morte de porcos dentro de um abatedouro industrial:  

O animal é primeiro aturdido mediante gás ou uma descarga elétrica, depois, recebe um corte na altura da jugular e então é imerso em um tanque de água fervente, para limpar o sangue. O corpo sem vida é esfolado, ulteriormente lavado e colocado em uma máquina especial. A cabeça é definitivamente cortada e o grande corpo, pendurado em um gancho que o manda para a fase sucessiva (onde todas as partes do seu corpo serão separadas).

Essas passagens são padronizadas, realizadas por homens que repetem gestos sempre iguais: um atordoa o animal, o outro corta a jugular, outro aciona a correia transportadora que mergulha o animal na água fervente. Mas o momento da morte não consegue ser asséptico: frequentemente o animal se agita e se revolta contra seu destino – às vezes, ele não é suficientemente atordoado pelo gás ou não morre com o corte na jugular e grita de dor quando é cozido vivo no grande tanque. Não é permitido assistir a essas cenas. O futuro consumidor não deve ver, porque ele não deve associar aquilo que tem no prato com a dor de um animal senciente.

Por que o vegetarianismo deixa sua alma mais leve (e uma deliciosa receita de refogado)

Tem um lance no vegetarianismo que acho difícil explicar para quem come carne. Estou falando da sutilização. Um monte de coisa fica mais sutil depois que a pessoa para de se intoxicar com bichos mortos temperados.

Se o vegetariano não é do tipo “trasheiro”, que só come carboidrato e açúcar, a primeira coisa que se sutiliza é o paladar. Quando você troca carnes por vegetais, é natural que com o tempo suas papilas gustativas se sensibilizem mais (ou ainda mais). Com isso, você passa a sentir de um jeito diferente o sabor de um monte de ingredientes, como temperos e vegetais que, em alguns casos, só são descobertos depois do vegetarianismo.

Antes de me tornar vegetariana, por exemplo, eu nunca tinha colocado curry na minha comida, usava muito mais sal do que uso hoje, adorava açúcar branco (coisa que hoje não consigo suportar mais), não sabia o que era tahine, nunca tinha ouvido falar em tempeh e jamais pensei em misturar hortelã com abobrinha. Meu conhecimento, imaginação e habilidade na cozinha eram bem limitados, admito.

Os mais espiritualizados dizem também que depois do vegetarianismo há uma sutilização da alma e da energia que gira em torno da pessoa. Ok, talvez os mais céticos não concordem comigo nesse ponto, até porque o que não falta é vegano rabugento e encrenqueiro por aí. Mas o fato é que há séculos o vegetarianismo é visto como uma ferramenta importante para alcançar a elevação espiritual. No entendimento de muitos monges, mestres e pessoas espiritualizadas que falam sobre o assunto, a exclusão das carnes é capaz de mudar a frequência energética da pessoa, facilitando processos de autoconhecimento, como a meditação.

O mestre espiritual búlgaro Omraam Mikhael Aïvanhov, autor do livro O yoga da alimentação (Prosveta), por exemplo, dizia que tirar a vida dos animais é uma grande responsabilidade espiritual.

Matando os animais para se alimentar, tira-se não só suas vidas, mas também a possibilidade de evoluírem, explica Omraam Mikhael em seu livro.

Os animais possuem alma e, embora ela não seja similar àquela dos homens, quem come carnes é obrigado a suportar a presença dessas almas. Essa presença se manifesta com comportamentos que pertencem ao mundo animal.

Por issoum homem (que se alimenta de carne) encontra dificuldade em desenvolver o seu Eu interior, porque as células animais, que têm vontades contrárias à do homem, não obedecem ao seu anseio. Isso explica como muitas manifestações dos homens não pertencem em realidade ao reino humano, mas sim ao reino animal.

Óbvio, não posso dizer pra você que minha alma está mais sutil depois do vegetarianismo, mas confesso que sinto um certo alívio espiritual quando paro pra pensar que nenhum animal precisou sentir medo, angústia, dor e sofrimento para que eu pudesse me alimentar. Antes que alguém questione, digo já: não, meus vegetais não sentem angústia porque não têm sistema nervoso central desenvolvido.

Independentemente das nossas crenças (ou não crenças), quando faço uma receita como esse refogado de grão-de-bico com berinjela, meu prazer é duplo porque vejo o quanto é fácil e extremamente saboroso se alimentar de forma vegetariana.

Refogado de grão-de-bico com berinjela

Ingredientes

1 kg de berinjela pequena fatiada em rodelas de meio centímetro

Sal a gosto

4 colheres (sopa) de azeite de oliva

1 cebola grande fatiada em rodelas finas

2 alhos amassados

1 ½ colher de chá de cominho em pó

½ colher de chá de páprica doce

⅛ colher de chá de pimenta-caiena

2 xícaras de tomates frescos (descascados e picados)

1 ¾ xícara de grão-de-bico cozido e escorrido

Folhas frescas de hortelã a gosto

Preparo

Frite (ou asse) a berinjela dos dois lados
Doure a berinjela dos dois lados. Dessa vez eu fritei porque me servia uma berinjela mais macia, mas se você é absolutamente contra frituras, asse a berinjela com azeite até as fatias dourarem.
Depois de frita (ou assada), salgue a gosto as fatias de berinjela e reserve.
Depois de fritas (ou assadas), salgue a gosto as fatias de berinjela e reserve.
Descasque e pique os tomates. Usei cerca de 10 tomates para chegar nas duas xícaras que a receita pede. Use tomates com bastante polpa e, de preferência, orgânicos.
Descasque e pique os tomates. Usei cerca de 10 tomates para chegar nas duas xícaras que a receita pede. Use tomates com bastante polpa e, de preferência, orgânicos.
Doure a cebola no azeite. Quando ela começar a ficar mais clarinha, adicione o cominho, a páprica e a caiena. Doure por mais 1 ou 2 minutos.
Doure a cebola e o alho no azeite. Quando a cebola começar a ficar mais clarinha, adicione o cominho, a páprica e a caiena. Doure por mais 1 ou 2 minutos.
Adicione na cebola as 2 xícaras de tomate. E refogue por uns 5 minutos.
Adicione as 2 xícaras de tomate e refogue por uns 3 minutos em fogo alto. Salgue a gosto.
Coloque então o grão-de-bico escorrido
Coloque então o grão-de-bico escorrido, mexa, tampe, abaixe o fogo e deixe refogar por uns 10 minutos ou até o molho encorpar. Se o tomate não tiver muito sugo, acrescente meia xícara de água ou de caldo de legumes.
Disponha as fatias de berinjela, cubra novamente e deixe refogar por mais 2 ou 3 minutos.
Quando o molho encorpar, disponha as fatias de berinjela, cubra novamente a panela e deixe refogar por mais 2 ou 3 minutos. Sempre em fogo baixo.
Desligue o fogo, acrescente folhas de hortelã, tampe a panela e deixe repousar por uns cinco minutos antes de servir.
Desligue o fogo, acrescente folhas de hortelã, tampe a panela e deixe repousar por uns cinco minutos antes de servir.

Manual de comportamento social para vegetarianos

Ser vegetariano é uma delícia na mesa, mas, às vezes, uma barra na vida social.

Por sermos minoria, vira e mexe a gente entra em umas saias justas que podem nos deixar sem reação, como ter que entrar em um fogo cruzado com um onívoro inconveniente, se justificar constantemente com outras pessoas, fazer uma espécie de odisseia para encontrar um médico atualizado sobre nossas necessidades, não ter o que comer fora de casa.

São tantos os conflitos que dá vontade de andar com um manual de autoajuda embaixo do braço, uma espécie de guia comportamental – “aprenda a enfrentar saias justas típicas de todo vegetariano”.

Como seria impossível prever absolutamente todas as situações por quais podemos passar, preparei uma listinha com aquelas mais frequentes e uma sugestão do que fazer quando elas aparecem.

Confesso que de vez em quando sinto vontade de comer carne. O que devo fazer?

Nos primeiros meses de vegetarianismo, eu salivava quando sentia o cheiro de linguiça assada. Com o tempo, meu paladar foi se esquecendo do sabor da linguiça, do churrasco, da carne… Hoje, depois de 10 anos, juro pra você que não tenho vontade nenhuma de comer essas coisas.

Então, dê tempo ao tempo. Normalmente, o paladar leva uns 3 meses para se adaptar a uma mudança, como a exclusão da carne ou a diminuição do sal, no caso dos hipertensos.

Como a maioria de nós vegs não nasceu vegetariana, é normal salivar com um cheiro ou uma imagem que até então relacionávamos a um tipo de prazer, como a imagem e o cheiro do churrasco. O que vai te ajudar a se manter firme no seu vegetarianismo é a sua convicção interior de que não dá mais para bancar a exploração e a morte dos animais.

Meu médico mandou eu voltar a comer carne, mas não quero. O que devo fazer?

Procure outro médico. “Qualquer problema de saúde ou deficiência nutricional pode ser corrigida sem a carne”, garantiu o médico nutrólogo Dr. Eric Slywitch. “Se o profissional que o acompanha não respeita sua opinião, você pode encontrar outros mais atualizados sobre o assunto”. Palavra de médico.

Fui convidado para um jantar na casa de não vegetarianos. O que fazer?

Íntimos ou não, pergunte aos anfitriões se tudo bem você levar um prato vegetariano. Muito provavelmente você tirará um peso das costas deles.

Em relação ao prato, leve um bom e bonito só pra mostrar pra povo desinformado que a gente pode comer muito bem, obrigado.

Como você levará um prato delicioso, providencie-o em grande quantidade. Quando povo sabe que um prato é vegetariano, ele cai pra cima e, se você bobear, fica sem nada. Pode ser apenas um simples patê de azeitona… Falou a palavra “vegetariano”, normalmente o pessoal da carne arregala o olho de curiosidade e o bocão de gula.

Fui convidado para um almoço de negócios numa churrascaria. E agora?

Você pode sugerir outro restaurante ou ir e ficar só no bufê de saladas e legumes, que, nas grandes churrascarias, costuma ser farto e bem variado.

Meu companheiro/a não é vegetariano/a e estamos pensando em ter filhos. Como evitar conflitos?

Esses casos são os mais complicados. O casal pode tentar chegar a um acordo diplomático, mas se ambos forem intransigentes em suas escolhas, provavelmente o conflito será inevitável e um dos dois vai ter que abrir mão.

Já ouvi muito o seguinte comentário: “Tem tanta criança no mundo passando fome, por que se preocupar com os animais?”. O que falar nessas horas?

Se dedicar à causa animal não necessariamente me impede de promover outras causas, como o combate a fome ou a luta contra a desigualdade social.

Quem pergunta isso não costuma fazer trabalho voluntário, portanto, nem adianta perguntar quantas crianças com fome essa pessoa ajudou recentemente.

O que fazer quando sou recriminado pelos familiares que se sentem ofendidos por eu não comer um prato com carne preparado por eles?

Se você prefere manter sua filosofia a ter que agradar alguém, exponha seus motivos e torça para que seus familiares sejam pessoas abertas e tranquilas. Coloque na cabeça que, se para eles sua atitude é grosseira, para você a insistência deles também é.

Mas, que fique claro, nada impede que você deixe sua filosofia de lado e aceite a comida que está sendo oferecida.

Eu já fiz isso com um prato que tinha queijo no dia em que conheci a avó do meu marido – napolitana, 96 anos na época (ela faleceu pouco tempo depois do nosso encontro), sobrevivente da 2ª Guerra… Como ela sabia que eu não comia carne, preparou uma receita com queijo especialmente para mim. Comi e elogiei sinceramente.

O que devo fazer em relação à comida quando faço uma viagem longa de avião?

Nas viagens internacionais, é possível reservar sua refeição especial no momento da compra da passagem aérea.

Aliás, esse esquema de refeição especial é ótimo porque sua comida é entregue antes de os comissários servirem os outros passageiros e, normalmente, a refeição vegana é excelente.

Se a viagem for nacional, não deixe de levar suas castanhas, frutas secas, biscoitos e lanchinhos preferidos.

Trabalho o dia todo fora de casa e numa região onde restaurantes vegetarianos praticamente não existem. Como resolver esse problema?

A alimentação vegetariana não é tão exclusiva assim. Em qualquer restaurante é possível encontrar legumes, verduras, arroz e frutas – pra deixar sua salada mais nutritiva, leve com você semente de linhaça, frutas secas e castanhas. O problema fica na hora do feijão, que na maioria das vezes é feito com bacon e linguiça.

Se não der mesmo pra ir a um restaurante não vegetariano, leve sua própria marmita de casa.

Como lidar com piadinhas que depreciam o vegetarianismo?

Diplomacia sempre é a melhor saída. Ou seja, ignore-as! Se você souber ser sarcástico, irônico, e estiver com vontade de continuar a “conversa”, vá em frente, mas, nossa, que canseira esse tipo de coisa.

O mesmo vale para aqueles discursos vegetarianos catequizadores. Por favor, evite esse tipo de coisa. Não tem coisa mais chata do que vegetariano metido a crente ou com ar de superioridade porque não come bichos.

Não sei como substituir o couro, a lã e a seda.

Leia as etiquetas de roupas e acessórios. Muito do que é vendido parece, mas não é. Poliéster, acrílico, policloreto de vinila (PVC), náilon e viscose são alternativas que ainda têm a vantagem de custarem menos do que os tecidos de origem animal.

Já percebi que os vegetarianos sofrem muito preconceito por causa da opção alimentar. Como se manter convicto nessa escolha?

Esses tipos de dificuldades acabam se tornando pequenas quando você está preparado emocionalmente para sua decisão.

Sim, você está indo contra a corrente, mas tem muitas outras pessoas junto com você nesse barco – profissionais das mais diferentes áreas, ativistas e, em alguns casos, amigos e parentes.

Para não se sentir um doido solitário, frequente eventos ligados ao vegetarianismo, restaurantes veganos, cursos de culinária veg… Enturme-se, ou não, se você é da turma “antes só do que mal acompanhado”.

Vegetarianos cheiram melhor do que homens que comem carne

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O antropólogo tcheco Jan Havlicek estudou o efeito do consumo de carne no cheiro do corpo

É fato antropológico já explicado: há séculos, o consumo da carne é associado à masculinidade e à valentia.

Mas o que pouco homem hetero em busca de sexo sabe é que toda essa masculinidade picanhesca não vai ajudar em nada na conquista de uma mulher se entre vocês dois houver um sovaco minimamente fedido.

Mulher pode até gostar de machos alfas que exalam masculinidade, mas nunca conheci uma que morresse de amores por homens com cecê. Principalmente virginianas, como eu, que se excitam com limpeza.

Duvida? Continue lendo. Essa semana conversei por e-mail com o antropólogo tcheco Jan Havileck, da Universidade Charles, em Praga, e ele me disse que para o olfato das mulheres, os vegetarianos têm um cheiro mais atraente do que homens que comem carne.

Mesmo não sendo adepto do vegetarianismo, Jan constatou isso depois de ter concluído seu estudo, intitulado Os efeitos do consumo de carne na atratividade do cheiro do corpo (clique aqui para ler o resumo do estudo, em inglês).

Publicada em 2006, a pesquisa contou com a participação de 30 mulheres, que, em troca de uma amostra de perfume e de uma barra de chocolate, tiveram que avaliar às cegas o cheiro das axilas de 17 homens não fumantes. Estes voluntários, por sua vez, foram divididos em dois grupos: comedores de carne (100 g de carne vermelha no almoço e 100 g no jantar) e comedores de vegetais.

Para ter certeza de que o cheiro dos voluntários fosse autêntico, durante as quatro semanas totais da pesquisa, os rapazes não puderam usar desodorante e tiveram que seguir à risca a dieta proposta. Além de terem sido convidados a manter um diário com anotações sobre o consumo de bebidas alcoólicas, nível de estresse e fadiga, que, assim como a genética, também podem alterar o odor do corpo.

“Os resultados mostraram que o cheiro dos doadores que não consumiram carne foi avaliado como significativamente mais atraente, mais agradável e menos intenso”, concluiu Jan, que recentemente descobriu também que o consumo regular de alho diminui o cecê. 

Mas, Jan, o que te levou a pesquisar a relação entre o consumo de carne e o cheiro do corpo?

Geralmente, estudamos a maneira como diferentes fatores, incluindo alimentação, humor, nível de estresse, fisiologia e a presença de doenças, podem afetar o odor do nosso corpo. O tipo de dieta aparentemente é um fator não genético que afeta o cheiro do corpo humano. Foi por isso que decidimos fazer essa pesquisa.

Já se passaram 10 anos desde a publicação dela. O que foi descoberto de novo nesse meio tempo?

Ainda sabemos relativamente pouco sobre como a alimentação afeta o nosso cheiro. Porém, recentemente realizamos um estudo a respeito do consumo de alho e descobrimos que, apesar de ele alterar o cheiro do hálito, esse bulbo pode melhorar o cheiro das axilas por ser um antibacteriano natural, capaz de combater também as bactérias que provocam mau cheiro embaixo do braço.

Apesar de o estudo sobre o consumo de carne não explicar por que as mulheres gostaram mais do cheiro dos vegetarianos, Mike Adams, editor da Natural News, sugere que a demorada digestão da carne libera muitas toxinas, que o corpo tenta expelir de algum jeito, como, por exemplo, pelo suor das axilas. Até mesmo o uso de suplementos proteicos, pra aumentar os músculos, altera pra pior o cheiro do corpo.

“A real causa do cecê é a excreção de horríveis toxinas das quais seu corpo está tentando se livrar. Ao usar desodorantes, você bloqueia a porta de saída e força essas toxinas a permanecerem dentro do seu corpo. A maneira de se livrar do cecê é não mascará-lo com produtos desodorantes, mas limpando o corpo por dentro”, escreveu Mike, que não mencionou o efeito positivo de um bom banho.